terça-feira, 19 de abril de 2011

Semana Santa



Não sou católica, aliás sou agnóstica, mas a procissão do fogaréu que ocorre quarta-feira da semana santa na Cidade de Goiás é um espetáculo imperdível, cheio de uma emoção indizível. Transcrevo texto que elucida bem este ritual único:

Procissão do Fogaréu: cultura, fé e emoção

Sem dúvida nenhuma, a Procissão do Fogaréu, juntamente com o nome de Cora Coralina, são os maiores ícones da cidade de Goiás além da Serra Dourada.

Riquíssima em detalhes nos mais diversos aspectos, litúrgicos e paralitúrgicos, a semana santa vilaboense tem como grande destaque a Procissão do Fogaréu.

A Semana Santa da cidade de Goiás teve sua origem em 1745, promovida pelo Padre espanhol João Perestello de Vasconcelos Spíndola, dando conotações com referência as celebrações de sua terra natal, principalmente das cerimônias de Sevilha e Toledo. As festas da Semana Santa em Goiás mantêm ainda hoje diversos ritos tradicionais e folclóricos. Costumes próprios da cultura regional estão presentes no folclore, na arte, no artesanato, na música e até mesmo na culinária do período.

Especificamente, a Procissão do Fogaréu, com características e rituais próprios, é uma das únicas no estilo a acontecer no Brasil. Desta forma identificando a cultura e identidade religiosa do local.

Segundo o historiador Fernando Pio (Pernambucano), a Procissão dos Fogaréus, (no plural mesmo), diz o historiador, acontecia em Lisboa e na Espanha pelos irmãos da Santa Casa de Misericórdia - chamada de Procissão das Endoenças (solenidade religiosa na Quinta-feira e maior celebração eclesiástica da Paixão de Cristo). Saía na Quinta-feira Santa para visitar as igrejas onde estivesse o Santíssimo exposto.

A organização da procissão obedecia as normas prescritas pelos Compromissos das Irmandades. Neles eram descritos com detalhes e sua organização e participação de cada um, indo à frente a bandeira da mesma, ladeada por tocheiros, outros carregando varas pretas, insígnias da Paixão de Cristo; cada um ladeado por tocheiros acesos. Mais atrás, seguiam os penitentes flagelando-se e duas alas de irmãos com varas pretas e quarenta outros conduzindo tocheiros.

Pelos dispositivos do compromisso, vê-se que aquela era uma das famosas procissões de penitência, já que em sua realização usavam os mais estranhos objetos de suplíco para autoflagelação.

Encontramos em diversas cidades a roupa variada de cada Irmandade onde aparecem sempre encapuzados nas cores branca; preta, branca e azul; vermelha; preta e vermelha, e branca, principalmente as realizadas na Espanha. Historiadores afirmam que a vestimenta, como é, originou-se da punição de Irmandades, no período da Inquisição, que eram obrigadas a trocar suas veste luxuosas por um vestuário grosseiro.

No Brasil, segundo o pesquisador Fernando Pio, a primeira a ser realizada no Brasil aconteceu num povoado da Bahia em 1618 e que na Paraíba foi registrada em 1726.

Se inicialmente o motivo principal da devoção era a penitência, posteriormente foi-se-lhe dando outro sentido que pudesse falar mais didaticamente à alma do povo: seria a representação da procura de Jesus pelos Judeus armados, sob a luz dos archotes. O aspecto da procissão na corte era “verdadeiro e quase alucinante desfile de penitência, mais tarde desvirtuada”. O grupo saía apressadamente, entravam nas igrejas pela porta frontal e saiam pelas laterais naquela movimentação rápida.

Em Goiás, embora a história oral diga que ela foi introduzida pelo Padre Perestelo, o mesmo que fundou a Irmandade do Senhor dos Passos em 1745, não parece ser procissão de penitência. Não existe data precisa da entrada dessa devoção na Cidade. Ela realiza em concordância em alguns aspectos com aquelas estudadas por Fernando Pio em Recife, ela se conserva até os dias de hoje na Cidade de Goiás, com variações que a liberdade do povo permite introduzir nas suas manifestações.

Não se tem notícias de que a mesma, em algum tempo, tenha sido coordenada pela Igreja ou pela Irmandade. Consta apenas o registro no livro de receita e despesas da Irmandade dos Passos, do pagamento a “farricocos” em 187(?); sendo somente um.

A procissão na cidade de Goiás representa a busca e a prisão de Jesus. A presença principal dos Farricocos, também chamados de Encapuzados, Faricocos ou Furnicocos, simbolicamente são os encarregados de manter a ordem, conforme suas primeiras funções.

Inicialmente acontecia na Quinta-feira Santa. Porém, devido ao acúmulo de solenidades no dia, passou, por volta de 1966, a acontecer na quarta-feira, que recebeu o nome de Quarta-feira de Trevas, passando aí a ser preparada pela Organização Vilaboense de Artes e Tradições - Ovat.

Pela história oral e depoimentos de vilaboenses mais antigos, nunca deixou de acontecer; somente em alguma época, sendo realizada de forma mais singela, até mesmo sem a figura do farricoco, mas com um grupo de homens que saíam com tochas e davam uma volta na praça principal e algumas ruas.

Hoje, guardando muito de sua originalidade em Vila Boa, tem início por volta da meia-noite de Quarta-feira Santa, com a iluminação pública apagada e ao som de tambores. Sai de frente da porta do Museu de Arte Sacra da Boa Morte, na praça principal. Segue rápida e desordenadamente até às escadarias da Igreja de N.S. do Rosário, onde encontrarão a mesa da última ceia já dispersa. Daí, segue em direção a Igreja de São Francisco de Paula, que no ato simboliza o monte das oliveiras, onde se dará a prisão de Cristo, representado por um estandarte de linho pintado em duas faces pela artista plástica Maria Veiga, sendo a peça original da autoria do artista Goiano Veiga Valle, no século XIX. Esta, hoje, está em exposição no Museu de Arte da Boa Morte. Nesta cerimônia, o único ato litúrgico, é a homilia realizada pelo Bispo Diocesano no pátio da Igreja de São Francisco de Paula. Após a homilia, a procissão continua até o ponto de origem e encerrando.

Durante a procissão são cantados três peças dos Motetos dos Passos, peças de texto bíblico orquestradas para pequena orquestra, no inicio (Exeamus), na parada do Rosário (Domine) e após a prisão do Cristo (Pater). Também aparece a fanfarra, com tambores tocando marchas rápidas. A fanfarra foi introduzida por volta de 1966, para se conseguir silêncio. Antigamente, em seu lugar havia toques esporádicos de uma “buzina”, chifres de boi semelhante a um berrante. No momento da prisão do Cristo, também se ouve o toque de um clarim, executado pelo farricoco de túnica vermelha.

A cerimônia é rica em detalhes e beleza plástica. As figuras encapuzadas remontam as cerimônias espanholas, mais especificamente às de Toledo e Sevilha e ao período da inquisição. A escuridão, as tochas, a rapidez e os encapuzados, criam um clima medieval assustador e excitante de beleza ímpar. A superstição também está presente. Acreditava-se que o demônio estava solto pelas ruas da cidade nesta noite, aterrorizando a todos e principalmente as crianças que iam para a cama mais cedo. Originalmente, desta cerimônia só era permitido participar os homens. Antigamente não era permitida a presença de mulheres no cortejo. Estas, pelo que se tem conhecimento, somente começaram a participar na década de 60, quando a Ovat assumiu a organização da procissão. Antes, quando muito, assistiam escondidas por detrás das cortinas das janelas de suas casas.

Outras crendices também fazem parte, relacionadas com a presença de lobisomem e mula-sem-cabeça, principalmente na zona rural. Outro detalhe digno de nota está relacionado ao estandarte que representa o Cristo, pintura que vai até a altura do abdome. Originalmente era uma peça inteira. Conta-se que se descosturava a parte inferior do tecido e introduzia-se uma tábua entre as faces ventral e dorsal, mantendo-se numa forma fixa ereta semelhante a um corpo humano. A ação de traças destruiu a parte inferior.

Existe todo um aparato para a realização da cerimônia. Além dos membros da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat), os quais ajudam voluntariamente todos os anos, há os personagens que quase brigam para manter sua vaga ou para conseguir uma nova. Toda a comunidade - de uma forma ou de outra - tem sua participação. A cerimônia, ainda, conta com grupos parceiros como o Coral Solo da Cidade de Goiás, por exemplo.

Vários moradores colaboram na montagem de cenários. O poder público mesmo que tímido, sempre participa, se não com ajuda financeira, está presente nas questões técnicas, como: limpeza das ruas, iluminação pública (neste caso para apagar) e sonorização. Outa participaçãoprimordial é do turista que disputa com o vilaboense a oportunidade de acompanhar a procissão carregando uma das trezentas tochas pequenas (tochinhas), que seguem atrás dos Farricocos.

Alguns estudiosos e escritores contemporâneos têm chamado a Procissão do Fogaréu de “Festa do Fogaréu”. Não comungamos deste pensamento nem desta terminologia. Pode até se dizer que a Quarta-feira de Trevas, pelo chamariz do evento (principalmente no aspecto turístico e ainda pelo feriado esticado, atraindo um grande número de visitantes na cidade e fazendo com que a própria comunidade saia às ruas), dê uma característica de confraternização. Entretanto, somente antes e após o ato em si.

Quem já assistiu a procissão certamente concordará com esta assertiva. A procissão por suas próprias características, somadas ao conjunto arquitetônico colonial, as luzes apagadas, o fogo, o rufar dos tambores, os encapuzados e a caminhada acelerada quase em desordem, passam uma emoção forte e singular vivificada tanto pelos que dela participam como pelos milhares que assistem pelas calçadas e ruas em que vai passando.

O momento remonta e trás a cada um, uma experiência fantástica de como que se estivesse em uma pequena aldeia européia em plena inquisição, ou ainda mais antiga ainda. Vive-se, então, um momento histórico e bíblico, saindo em direção ao Monte das Oliveiras para a busca e prisão do Cristo.

Com tudo isso, a Procissão do Fogaréu e o farricoco, individualmente são hoje, sem dúvida, um símbolo da cidade de Goiás, que a identifica nacional e até intencionalmente e marca, com grande emoção, todo aquele que a assiste.

HEBER DA ROCHA REZENDE JÚNIORé advogado. Foi secretário de Turismo e Cultura da Cidade de Goiás, Procurador Geral do Município de Goiás e ex-presidente da Ovat.


Abraços e boa páscoa a todos!!!



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